A dilaceração da dor bem sentida. O drama da existência sofrida. O exagero e a mentira do profeta. A realidade fingida da vida do poeta. Se o surreal tiver início, é aqui que ele começa...
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Qui tacit, consentire videtur
(impressões redigidas em 18/19/20 de abril de 2009, na Cidade das Cobras)
_Te desafio a acertar aquele passarinho ali na árvore.
_Não gosto de matar pássaros, o senhor sabe. Mas acerto o tronco daquela árvore, quer apostar?
Ainda recordo daquele dia, em Janeiro, quando, com o estilingue em punho (sim, sou um moleque de saias!), ouvi sua voz ressoar forte atrás de mim. Sentado na varanda, cigarro de palha, ainda contando suas (es) histórias. - Fui lhe convidar para a Formatura, que ocorreria em Fevereiro, à qual ele não pode comparecer, por já estar adoentado. - Grande tristeza dele, e minha. Bem nutrido, ocupava-se, unicamente, em amarrar e desamarrar a vaquinha aqui e acolá, tentando mantê-la longe da estrada. Já começava a demonstrar traços da senilidade advinda da doença, a qual, diga-se de passagem, ninguém sabia de que era acometido!
Hoje, menos de três meses depois, é apenas um espectro de pele e ossos, vagando pela casa. Sem apetite, alimenta-se somente dos cigarros, único prazer que ainda resta. Não lhe contaram que tem câncer. Não sabemos se ele sente que a doença o toma quase por completo.
Quase não conversa mais. Sua voz soa fraca e, por vezes, diz coisas incompreensíveis. Me falou que é triste olhar e não poder conversar. Respondi que, para aqueles que se amam, não é preciso palavras. Basta um olhar para que tudo seja dito. Ele aquiesce com um meneio de cabeça.
Confessou que não aguenta mais tantas visitas. Também eu me aborreço. Essa gente vem para velar antecipadamente um morto que ainda está vivo!
Frágil, se cansa com facilidade, e passa a maior parte do tempo dormindo. Não sai mais de casa. Fica, no máximo, sentado na varanda, olhar perdido, murmurando pequenas blasfêmias e emitindo suspiros de desalento. Me olha sempre como se fosse a última vez. Quando o ponho na cama, rezamos de mãos dadas. Sua pele, já com tom esverdeado, libera os odores característicos da enfermidade que o acomete.
Do homem imponente, com voz de trovão, resta apenas um fiapo. Sua mulher, minha avó materna, desdobra-se em cuidados, para ganhar não agradecimentos, mas censuras ríspidas, próprias do costume. Condescendente, ela apenas o observa com seus belos olhos azuis, na postura que sempre manteve: a de sofrer calada, em sua docilidade de mulher preparada para satisfazer aos outros, e não a si mesma.
Ele me diz que acha que a outra avó, a paterna, não durará muito. Isso, com olhos de quem pensa: "não sei quem vai antes: ela, ou eu!". Suspira... Fica em silêncio e, de repente, solta: "Eu nunca fui mau para os meus filhos." - como se quisesse libertar-se de algum peso que lhe oprime a consciência.
Evoco as recordações de infância, tentando lembrar de como, antigamente, tudo aqui era bonito. O sítio - que, outrora, poderia ter servido de cenário para uma suntuosa e psicodélica Rave - definhou. Com ele, definharam plantas e animais, e os poucos que restaram foram vendidos. As terras, arrendadas, pouco produzem. Do frondoso pomar, nem sombra. Não há mais estábulo, nem potreiro e, tampouco, horta. A vida se extingue neste lugar.
Contraditório ciclo de renovação, além do céu cravado de estrelas, brilha a Lua Minguante, despontando em beleza. Pude acordar com o galo cantando, antes das 5 da manhã, madrugada ainda escura, pois não estou habituada a dormir cedo. Vi o Sol nascendo sobre os montes, brilhando como se fosse capaz de esquentar todos os corações gelados e rancorosos do mundo. Isso tudo embalado ao som de "Animals" (CocoRosie).
Visito, na Segunda-feira, a vovó paterna que, também senil, há muito mais tempo que o nono (avô materno), demonstra extrema carência afetiva. Com frio, ela se deita, e repete infindavelmente: "me esquentar... me esquentar... me esquentar...". Diz que minha mão é quentinha. Está com frio nos pés. Providencio calor. Faço carinho nela enquanto fico ali. Penso nas ironias da vida, pois meu avô paterno, logo que o visitei, depois de 11 anos sem nos vermos, desencarnou. Sinto uma ternura infinita por essa senhorinha de cabelos brancos, que, apesar de decrépita, apresenta uma memória espantosa. Lembro que me criou. Foi ela quem me ensinou a rezar. Outra ironia, ela foi a catequista de meu avô materno, que agora está beirando a morte. Em meio aos pensamentos, meu tio retorna para me buscar. Volto ao sítio.
Aqui, tudo cheira a morte. Porém, espetáculo à parte, as rosas são as únicas que crescem, como se indiferentes aos mortos que as rodeiam. Impávidas, viçosas, erigem-se no que ainda resta de jardim. Silenciosamente, desejo que se espalhem a ponto de tomar conta da casa inteira, porque, talvez, sua prosperidade fosse capaz de espantar daqui a aura de tristeza.
Brancas, amarelas, cor-de-rosa e vermelho vivo, algumas ainda em botão, se sacodem ao vento, como se dissessem bom dia ao Sol, indicando que a roda da Vida é infindável, não importando quantos mortos tenhamos que enterrar pelo caminho...
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(hoje, 24 de abril de 2009)
Ironia do destino, ou não, ele só esperou que eu chegasse em casa. Antes de eu vir embora, ele caiu, fez um cortezinho no braço, e bateu um pouco a testa. Eu disse:
_Caiu de maduro, nono?
Ele responde, num fiapo de voz:
_É, caí de maduro!
Enquanto fizemos curativo nele, que, silencioso, divagava sabe-se lá por onde, ou no quê, não ouvimos sequer uma reclamação de dor!
Antes disso, à tarde, quando juntos fizemos nossa última oração, ao pô-lo na cama, apertou forte, bem forte, minha mão...
Quando me despedi dele, ainda na mesma noite de Segunda-feira, me olhou longa e silenciosamente, enquanto eu falava para ele não esquecer do meu infinito amor, e ligar se precisasse de alguma coisa. Isso me lembra aquela frase (musical): "Palavras e silêncio que jamais se encontrarão."
Ainda, voltei à porta umas duas vezes, como que movida por um impulso sobrenatural, para dar tchauzinho com as mãos. Ele, ainda silencioso, somente me olhava, profundamente. Pelo olhar, via mais que minha superfície. Ele me lia a alma. E dizia algo, de alma à alma.
Tendo chegado mal em casa, dormi boa parte da Terça-feira. À noite, quando liguei para minha nona e, depois, para minha tia, soube q ele mal dormiu, perguntando se eu havia chegado bem, se havia ligado. Para tranquilizá-lo, disseram que sim.
Na Quarta-feira, pela manhã, minha mãe e eu falamos muito sobre eles, sobre nós. No mesmo dia, à tarde, ela ligou no celular, quando eu estava no trabalho. Desconfiei. Ela não pode conter o choro ao dizer que ele havia partido, por volta das 12h.
Pelo que me contaram, partiu sem sofrer. Foi se apagando aos poucos. Só aí eu compreendi o que aquele olhar quisera me dizer. Realmente, ele só me esperou, igual ao vovô paterno.
Não chorei. Precisava de força para confortar aos demais. Vim para casa mais cedo. Conversei com minha mãe. Acalmei-a aos poucos, pois todos sabíamos que, antes de ficar sofrendo, melhor ele ter partido repentinamente. Ela viajou na Quarta-feira à noite. Depois disso, contei à minha pequena irmã que, na inocência dos seus quase oito anos, chorou um pouco, mas também compreendeu ser a morte física apenas uma passagem, e que há algo muito maior. E esse algo perdurará, independente de tudo que passe.
Não obstante, resta o sentimento de que, da próxima vez, aquela voz de trovão não estará lá para me receber com seu cigarro de palha, e suas histórias, e não mais me dirá fisicamente que perseguiria meus algozes até o fim do Mundo, só para me ver sempre feliz; só para ver irradiar o semblante de inocência intacta da sua eterna "roquete".
Porém, como as rosas, a cada morte dos meus, renasço, justamente por saber que o Todo é apenas fragmento de nós mesmos, e que, certo dia, tornaremos a ser o único ser do qual partimos.
P.S. - esse escrito pode não ser grande coisa mas, se copiar para algum lugar, não esqueça dos direitos autorais. E tenha em mente que reprodução sem autorização ou indicação de autoria constitui crime à propriedade intelectual!
terça-feira, 14 de abril de 2009
A PAIXÃO
Às vezes, ela começa de mansinho...
Um olhar, um gesto, e você sequer percebe que ela está a lhe envolver.
Um passar aqui, outro ali, e mais olhares. Percepção.
Silenciosa, ela vai armando sua teia e, depois de algum tempo, você se dá conta de que ela te pegou de jeito.
Você se sente ligado em 220v. Às vezes, perde o sono.
Ela pode ser platônica, relâmpago, duradoura, avassaladora. Geralmente, vem acompanhada de músicas propícias a essas ocasiões, estilo Adriana Calcanhoto e afins.
Possui várias modalidades:
Declarada, e aí você pode se dar bem, sentindo-se capaz de tudo; ou ficar à mercê da dor e sofrimento advindos da não-correspondência. Fossa.
Secreta, daquele tipo que ocasiona borboletas no estômago e tremedeira ao ver a pessoa. Geralmente cumulada com o sofrimento de não poder ou não ter coragem para dizer o que lhe vai no coração.
Pode, também, ser semi-secreta, o que implica em várias pessoas terem conhecimento da mesma, exceto o ser objeto de tal admiração ardorosa. Sujeita às mesmas consequências ocasionadas pela não-correspondência, que ataca também a modalidade anterior.
Dentre outras...
Não importa de que forma ela venha. O fato é que, quando estamos apaixonados, damos um jeitinho de ficarmos perto da pessoa, e até de nos fazermos notar, por meio de subterfúgios que nem sempre resultam em sucesso.
Há incontáveis probabilidades. Pode ocorrer um desencontro, por exemplo. Ou pode ser que a pessoa sequer deite reparo em você. Pior ainda: pode ser que ela te despreze e não tenha interesse na sua aproximação.
Aí você fica desesperado e, o que a princípio parecia um deleite, uma coisa boba - simples platonice, toma dimensões catastróficas, e lhe ocupa os pensamentos de uma forma angustiante. Não há distração suficiente para apaziguar tamanha paixão.
O que fazer, então?
Não adianta tentar matá-la pois, tal qual Jack, o Estripador, a cada tentativa ela adquire mais força.
A única alternativa é deixar fluir. Ver onde deságua esse córrego caudaloso e desenfreado.
Das duas, uma: ou ela morre, ou, então, adormece para dar lugar a algo diferente, que pode ser, inclusive, outra paixão.
Não obstante, seja você solteiro, ou comprometido, jamais deixe de se apaixonar, de dar azo à sua alma poética, pois a paixão nos faz sentirmos vivos, coloridos, enlevados.
Esquecer seu significado equivale a ensimesmar-se num invólucro empoeirado e bolorento, capaz de enferrujar o que há de mais belo no ser humano, inumano e - para ser quase redundante - em todo o Universo: o fulgor das coisas ainda inexploradas.
A morte do flerte é a morte da alma!
P.S. - esse escrito pode não ser grande coisa mas, se copiar para algum lugar, não esqueça dos direitos autorais. E tenha em mente que reprodução sem autorização ou indicação de autoria constitui crime à propriedade intelectual!
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