sexta-feira, 7 de junho de 2013

Metamúsica

Dá o play nessa música, e leia o conto abaixo. Mergulhe na estória...




Noite de inverno. Fogueira acesa no salão do Trono. Todos os convidados em êxtase esperando pela dançarina de Avalon. Depois de viajar por 1 dia inteiro através do lago das brumas, finalmente chegou à muralha. Foi levada pelo Conselheiro à presença do Rei e da Rainha. O ambiente, até então em euforia, silenciou com sua chegada. Até a música parou. Estava habituada a tal reação. Em todo lugar que passava, o silêncio contemplativo se estabelecia. A única coisa que se ouvia era o tilintar dos metais que ornavam corpo e vestes do Conselheiro, e o farfalhar do simples e longo vestido que ela usava. Tinha 34 anos, e uma beleza transcendental. O Conselheiro a deixou a centímetros de distância do tablado do trono, reverenciou ao casal real, e retirou-se para junto dos convidados.
Ali estavam, Rei e Rainha, à sua espera. Sentia-se tão próxima deles, que com cinco passos, incluindo a subida de dois degraus, poderia tocá-los. Ao mesmo tempo, encontrava-se tão distante em pensamentos que, por pouco, não se esqueceu de reverenciá-los. Agarrou suavemente as bordas do vestido, e delicadamente inclinou a cabeça ao nobre par. Na reverência, seus olhos se cruzaram por breves instantes com os da Rainha: olhos verdes como as folhas de oliveira, cabelos encaracolados, de brilhante cobre, que caíam nos ombros, e o semblante que revelava a típica força impetuosa de uma pureza profanada. Tinha traços joviais, mas seu rosto também demonstrava a experiência de uma mulher de quase 40 anos. Sentiu nela uma aura de sublimação que continha anseios e paixões reprimidas que nunca antes experimentara observar em alguém. Voltou o olhar para o Rei, altivo, traços suaves e cabelos loiros, lisos como pétalas de um botão de rosa, porém mais longos que os da Rainha, e olhos castanho-escuros que transmitiam a frieza das pedras de Inis Mór. Estremeceu ao se dar conta que, embora ele não deixasse transparecer muita coisa no olhar, exalava a virilidade do desejo, acompanhada do sutil ar arrogante de quem está acostumado a obter o que quer, a qualquer preço.
Após a fração de segundos que durou a reverência acompanhada de reflexão observativa, o Rei fez um sinal com a mão para os músicos, seguido de um gesto de concessão para que ela iniciasse sua dança.
As flautas começaram, acompanhadas pelos bodhrans, depois pela cítara, tambores, e o som da concertina.
Ela moveu-se para o centro do salão, e dançou. A princípio, lenta, com delicados gestos de mãos e passar de pés. Conforme a música evoluía, ela dançava de maneira mais frenética. Seus cabelos negros, caídos até a cintura, e extremamente lisos, faziam conjunto com a pele levemente morena, coberta por pouquíssimos pelos, e um rosto que lembrava os remotos ancestrais indígenas, com belos olhos negros, brilhantes e vivos como o carvão que ardia nas fogueiras, nariz de finos traços aristocráticos e lábios cor de terra clara que pareciam uma nuvem de algodão. O vestido de mangas curtas deixava transparecer as tatuagens dos braços, cuja simbologia indicava que ela era Filha da Deusa. No braço direito uma meia-lua, no esquerdo um pentagrama, e na parte interna dos pulsos, de cada lado, um triskel: o do lado direito girava no sentido horário e, o esquerdo, no sentido anti-horário.
Movia-se com a graça e leveza de um felino, e entregava-se à dança com a paixão de uma águia em seu voo. Os presentes, que se espalhavam ao longo e atrás de duas filas que iam da porta fechada do salão até o fim das colunas laterais, olhavam boquiabertos, envolvidos pelos gestos e passos. Seu corpo de formas exatas e curvas, como que esculpido à mão pelo mais sagaz dos artistas, balançava de maneira extremamente sensual, despertando pensamentos sagrados e profanos naqueles que a assistiam.
Enquanto dançava, percebeu que o Rei a observava como um objeto do qual desfrutaria mais tarde, após as festividades. Olhos cravados nela, e as mãos crispadas nos braços do trono indicavam que estava levemente desconfortável com a dança, como se ela o perturbasse. Seu rosto, porém, transmitia um semblante de agrado indiferente.   
Conforme o som lhe entrava na alma e ditava seus passos, freneticamente, vez ou outra voltava os olhos para o tablado real e, após, analisar rapidamente o Rei, detinha-se na figura da Rainha, que, com seu vestido de mangas longas, estava com as mãos caídas sobre o colo, entrelaçadas, observando a dança com profundo interesse. Aquela graciosidade estável, de quem freava os próprios ímpetos, agora deixava transparecer uma respiração ofegante, como se também estivesse naquela dança. Parecia-lhe que, todas as vezes em que os olhares se cruzavam, aquele par de olivas lhe dizia alguma coisa. Algo que não conseguia compreender, por mais que tentasse, entre um giro e outro, mergulhar nos mistérios daquele mar profundo.
No decorrer da dança, ela girava o corpo e os braços, possuída pela chama da Deusa, como que se deixando levar na floresta, entre as árvores que balançavam com o vento. Entregava-se de corpo e alma à celebração de seu dom. Em seus passos, a firmeza de um tigre em caça, e a fúria de um dragão em seu voo de assalto. Em seu interior ardia a chama do fogo apaixonado. Lentamente, finalizou com graciosos gestos de mãos, que passavam pelo corpo como se estivesse tomada por algo sublime.
Quando terminou, aclamada por gritos de êxtase, e palmas prolongadas, dirigiu-se aos aposentos que lhe foram destinados. Viu pelas portas abertas da sacada, entre brancas cortinas esvoaçantes, a Lua, em sua fase mais cheia, bem próxima do balcão, ali, quase se unindo à Terra. Debruçou-se naquelas pedras e ficou a contemplá-la. Ouviu passos no corredor, e a porta ranger. Nem se virou, pois deveria tratar-se do Rei, que certamente ali chegava para saciar suas vontades com ela. Porém, com a proximidade, sentiu que não era quem imaginara. Olhou de relance, e viu a Rainha, que trocara o vestido por uma delicada camisola preta transparente, de mangas curtas, debruçando-se no parapeito, junto dela. Para seu espanto, aqueles braços mostravam as mesmas tatuagens que carregava, revelando que, assim como ela, a Rainha era uma Filha de Avalon. Então, compreendeu...
Naquela noite, enquanto as chamas da Deusa ardiam no Templo de Avalon, e o silêncio caía sobre o palácio real, elas celebraram a Lua e reverenciaram a Natureza, unindo Terra, Água, Ar e Fogo num só elemento. E o Universo inteiro dançou...

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